O BRASIL E O GRANDE ORIENTE DO BRASIL:
UMA DÍVIDA HISTÓRICA DE MEMÓRIA E RECONHECIMENTO

Hélio Pereira Leite
Ao longo de mais de duzentos anos de história nacional, a Maçonaria brasileira exerceu papel decisivo na formação política, institucional e cultural do Brasil. Em seus quadros estiveram homens que lideraram a Independência, combateram a escravidão, fundaram a República, consolidaram o Estado laico e estabeleceram as liberdades civis.
Contudo, essa contribuição permanece sub-representada na narrativa oficial do país. E mais: quando se fala em “dívida histórica” do Brasil para com a Maçonaria, é necessário precisão institucional. Entre 1822 e 1927, existiu no Brasil uma única potência maçônica regular de caráter nacional: o Grande Oriente do Brasil (GOB). Foi sob sua égide que se deram os principais acontecimentos fundadores da nacionalidade.
Portanto, a dívida histórica do Brasil não se dirige a uma abstração chamada “Maçonaria”, mas tem um destinatário institucional concreto: o Grande Oriente do Brasil.
A Independência de 1822 foi amplamente gestada em ambiente maçônico. As Lojas funcionaram como espaço de articulação política, circulação de ideias liberais e organização do projeto emancipatório. Nesse processo, destaca-se Joaquim Gonçalves Ledo, um dos fundadores do Grande Oriente do Brasil, líder da ala liberal-democrática do movimento e verdadeiro paladino da Independência.
Ledo concebeu a Maçonaria como instrumento cívico de transformação política. Defendia a soberania popular, a convocação de uma Assembleia Constituinte, a limitação constitucional do poder monárquico e a autonomia plena do Brasil frente às Cortes portuguesas. Foi o principal articulador da campanha que resultou na convocação da Constituinte de 1823, marco fundador do constitucionalismo brasileiro.
A história registrou duas correntes na Independência: a liberal-democrática, liderada porLedo e pelo GOB, e a monárquico-moderada, liderada por José Bonifácio. Embora derrotado politicamente em 1823, com o fechamento da Constituinte por D. Pedro I e o exílio de seus líderes, o projeto de Ledo venceu historicamente. Seus princípios tornaram-se fundamentos permanentes do Estado brasileiro.
Nas décadas seguintes, o Grande Oriente do Brasil continuou a exercer o papel central na vida pública nacional. Seus membros estiveram na linha de frente da defesa do Estado laico, da liberdade de consciência, da educação pública e do constitucionalismo. Maçons como Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva, Campos Sales e Nilo Peçanha foram arquitetos do arcabouço jurídico e institucional da República.
Na campanha abolicionista, a atuação do GOB foi expressiva. Lojas arrecadaram recursos para a compra de cartas de alforria, apoiaram clubes emancipatórios e mobilizaram a opinião pública. Joaquim Nabuco e o Visconde do Rio Branco, ambos maçons, figuram entre os protagonistas do processo que culminou na Lei Aurea de 1888.
A Proclamação da República, em 1889, foi conduzida por uma elite polítco-militar fortemente vinculada ao GOB. Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamin Constant e Quintino Bocaiuva são nomes indissociáveis da fundação do regime republicano. Nas primeiras décadas da República, a maioria dos presidentes brasileiros era maçom, o que evidencia a centralidade do Grande Oriente do Brasil no projeto de reorganização institucional do país.
Além da política, o GOB exerceu papel social decisivo. Fundou escolas, bibliotecas e hospitais, criou instituições beneficentes, promoveu alfabetização e formação cívica em regiões onde o Estado era ausente. Em muitas localidades, foi a principal referência de organização comunitária e promoção do estar social.
Apesar disso, o Brasil jamais concedeu ao Grande Oriente do Brasil um reconhecimento institucional proporcional à sua relevância histórica. Esse esquecimento decorre da antimaçonaria estrutural, da mudança do perfil político da Ordem após 1930, da cultura nacional de desvalorização da memória cívica e da própria tradição discreta da Maçonaria.
A dívida histórica do Brasil para com o GOB não é material. Ela é moral, simbólica, cultural e institucional. Consiste no dever de reconhecer publicamente que a construção do Estado brasileiro passou, de modo decisivo, pelo Grande Oriente do Brasil e por Joaquim Gonçalves Ledo.
Esse reconhecimento poderia se materializar por meio de um ato oficial do Estado brasileiro, da inclusão sistemática da história do GOB nos currículos escolares, da criação do Dia Nacional da Maçonaria Brasileira com menção expressa ao GOB, do tombamento de seus templos e arquivos históricos e do incentivo à pesquisa acadêmica sobre o seu legado.
Sem o Grande Oriente do Brasil, é plausível afirmar que a Independência teria sido mais tardia, a Abolição mais lenta, a República mais instável e as liberdades civis mais frágeis. Portanto, Honrar o GOB não é conceder privilégios. É fazer justiça à história pátria.
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Helio Pereira Leite - Conselheiro Federal
Brasília, DF, 30 de novembro de 2023

Helio Pereira Leite, Nasceu em Fortaleza – Ceará, em 07 de agosto de 1940.
Em 1959, concluiu o Curso Científico, no Liceu do Ceará.
Ainda em Fortaleza, fez o Curso de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR de Fortaleza, turma de 1960).
Em São Luís (Maranhão) serviu como Oficial R-2 de Infantaria, no 24° Batalhão de Caçadores.
A partir de l963, radicou-se em Brasília, onde ingressou no Serviço Público, constituiu família e se bacharelou em Direito (CEUB, turma de 1972).
Em 1966, ingressou na Loja Maçônica União e Silêncio, federada ao Grande Oriente do Brasil.
Exerceu diversas funções maçônicas, destacando-se a de Grão-Mestre do Grande Oriente do Distrito Federal (gestã0 2003-2007).
Recebeu várias comendas maçônicas, dentre as quais a Cruz da Perfeição, após quarenta anos de atividades na Arte Real.
Participou do 4º Ciclo da ADESG-DF (turma 1975).
É Cidadão Honorário de Brasília, título concedido pela Assembleia Distrital Legislativa do Distrito Federal.
Presidiu a APAE-DF, tendo exercido o cargo de Procurador Geral da Federação Nacional das APAEs.
Produções literárias: Ensaio –“ Maçonaria e Intelectualidade” (1989); Diário de Viagem – “Cuba, uma Ilha, dois países” (2002); “100 Peças de Arquitetura” (2010, organizado com Kleber S. Nascimento).
Do maçom Helio Pereira Leite veja também os artigos:
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- Absai Gomes de Brito
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Abel Tolentino
WebMaster
Atualização 03/03/2026
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